terça-feira, 13 de julho de 2010

2 - Anarquia

Outra semana estava terminando, e pelo menos enquanto o meu celular não tocasse eu estaria livre para descansar o final de semana, mas eu sabia que descansar seria a última coisa que eu faria, era aniversário da Marília e nós estávamos organizando a festa dela. O maior problema organizacional era exatamente a festa ser da Marília, tinha que ter TUDO, absolutamente, era tradição nestes anos todos as festas dela serem sempre as melhores, começavam na sexta a noite e terminavam apenas no domingo, pelo menos para os mais chegados.
Sentada na minha mesa na redação do jornal, dando alguns telefonemas para avisar o pessoal, eu comecei a recordar de quanto tempo, exatamente, significam todos estes anos em que estamos juntos, eu e os meus amigos. Me lembrei do nosso time de volei, categoria infantil, tínhamos todos entre 15 e 18 anos. Em momentos de nostalgia todos nós concordávamos que aqueles foram os melhores anos, os treinos diários, as viagens e as descobertas. O tempo foi passando, nós crescemos, nos tornamos adultos, pelo menos na teoria, e ainda estávamos juntos, não com os mesmos números, alguns se mudaram, preferiram outras companhias, mas nós ainda estávamos juntos, como sempre sonhamos, no que parecia ser uma amizade eterna. Eu não conseguia me lembrar de uma vida sem eles, não havia vida sem eles.
Há dois anos tudo estava como nós planejamos na adolescência, uma república anárquica para morarmos juntos, sem muitas regras, do jeito que a gente sempre quis. Eu decidi não ir morar com eles, acho que na casa da minha família eu tenho o espaço suficiente, e como na época minha irmã estava casada eu imaginei que minha mãe sentiria muito a minha falta. A Marília não morava lá também, como ela sempre foi a menos provida de juízo a mãe dela, tia Tânia, sentiu necessidade de prendê-la em casa por mais alguns anos e enquanto me lembrava disso acabei concordando que ela esteve certa, aquela república não poderia viver de festas todos os dias. Então ficaram por lá o Mateus, Camila, Pedro, Jéssica e o Rafa que depois de voltar mais uma vez para o nosso interior gostou da ideia de não voltar a morar com os pais, mas aos finais de semana, eu e a Marília morávamos lá também, de qualquer forma.  
Despertei das lembranças com o meu celular particular tocando ao mesmo tempo que fazia uma ligação pelo fixo. Era o Mateus.
_ Oi
_ E ai gatinha, tá livre hoje? - ele brincou. 
_ O meu celular ainda me avisa quando você está ligando. 
_ Mau humorada? 
_ Não, só com uma lista enorme de gente pra avisar. 
_ Já chamou a Gabi?
_ É mesmo pra chamar? A Marília não gosta muito dela. - A Gabi era uma das minhas amigas da faculdade, a que eu mais gostava, e a que o Mateus estava a fim. 
_ A Má diz isso porque a Gabi não quis beijar ela aquele dia no barzinho
Me lembrei nesse momento de como fiquei constrangida com a Marília por ter falado com ela sobre isso na frente de todo mundo, a Gabi ficou azul de vergonha, ela não era gay e depois daquilo ela custou a acreditar que eu também não era. A Marília não correspondia ao estereótipo que existe em cima das lésbicas (e ela odiava ser chamada assim), mas de uns anos pra cá, mais precisamente quando decidiu contar sobre suas preferências para os pais, que certamente já sabiam, era uma devastação de revelações quando abria a boca, nós já estávamos acostumados, porque quando era só entre nós era sempre assim, mas quando ela começou a fazer essas revelações pra pessoas de fora, logo de cara, foi um pouco constrangedor. Como sempre a Camila odiou e elas até brigaram por isso uma vez.
_ Alê? - Ele chamou minha atenção.
_ Desculpe, é pode ser por isso, mas talvez tenha mais a ver com a reação desconsertada da Gabi no episódio, mas tudo bem, eu chamo. - Não pude evitar rir com a lembrança.
_ Ok, então, quando terminar me dá um toque pra dizer quem topou. 
_ Tá eu ligo, até amanhã então. 
_ A lista é tão grande assim?
_ Certamente. É a festa da Marília, lembra?
_ É, claro. - Ele riu - Tudo bem então. Vem me ver hoje?
_ Provavelmente não, tenho muito trabalho pra terminar.
_ Você ainda vai morrer com tanta ocupação! - Ele disse, tentando ser sério.
_ Espero que a minha festa de enterro seja bastante animada! - Eu brinquei, afinal eu gostava das minhas responsabilidades, já ele, gostava mesmo era de fingir que gostava das suas, eu já sabia.
_ Pode deixar! Beijo!
_ Beijo! - Desliguei.
Eu mal podia esperar pela festa, estava um pouco entediada, precisava de ação! Tinha certeza que nada seria melhor que uma festa para resolver isso.

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